quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Campanha fortalece ações de combate à violência contra mulheres da Rede Lilás

A Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) realizou uma reunião de trabalho na manhã desta quarta-feira (28), para a adesão oficial do Rio Grande do Sul à campanha "Compromisso e Atitude no Enfrentamento à Impunidade nos Crimes de Violência contra as Mulheres". A oportunidade serviu também para unificar as ações ligadas a essa iniciativa, pela perspectiva da Rede Lilás.
A secretária Ariane Leitão afirmou que o objetivo do encontro era aproveitar o momento em que estão sendo fortalecidas as ações de combate à violência contra mulheres e meninas para apresentar a iniciativa. "A campanha faz parte da Rede Lilás, que estamos institucionalizando. Precisamos proteger as mulheres, combater a ideia de impunidade, reforçar que a agressão de mulheres e meninas é crime. E para isso, temos que avançar nas ações interligadas", ressaltou.
Representando o Ministério Público, o promotor público David Medina da Silva afirmou que campanhas como a Compromisso e Atitude podem fortalecer o combate à violência doméstica. E ressaltou a importância da atenção especial aos casos de ameaças, sendo necessário até mesmo modificar a pena para esse tipo de crime, que hoje é mais branda. "Aquele que mata, antes ameaçou", lembrou.
A representante da Defensoria Pública, Jamile Nehmé de Toledo, coordenadora do Núcleo Especializado de Atendimentos das Mulheres Vítimas de Violência, ressaltou a importância do trabalho de prevenção aos casos de agressões a mulheres e meninas, e lembrou a importância da realização de reuniões periódicas para o fortalecimento da Rede Lilás.
Para o representante do Tribunal de Justiça, juiz corregedor Antônio Claret Flores Ceccato, a campanha é mais um caminho no combate à violência doméstica. Ele lembrou que, para fortalecer o trabalho da Rede Lilás, o TJ criou a Coordenadoria Estadual das Mulheres em Situação de Violência Doméstica e Familiar.
A OAB esteve representada na reunião por Delma Silveira Ibias, presidente da Comissão da Mulher na entidade. Ela frisou que a instituição é parceira da SPM no trabalho de combater os casos de agressão contra a mulher. O procurador geral do Estado, Carlos Henrique Kaiper, afirmou, no evento, que a PGE dá grande atenção aos direitos humanos e às questões de gênero. Para ele, o aumento no número de denúncias de casos de violência doméstica reflete as políticas instituídas para debater essa temática.
O secretário da Segurança Pública, Airton Michels, afirmou que os quatro órgãos vinculados à pasta - Brigada Militar, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam), Instituto Geral de Perícias (IGP) e a Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe) - estão inseridos no trabalho de fortalecer a Rede Lilás. Ele frisou ainda que o primeiro passo para diminuir a violência contra as mulheres é reduzir a violência como um todo no país.
Secretário-executivo do Conselho Estadual do Desenvolvimento Econômico e Social (Cdes), Marcelo Danéris comentou que é preciso mudar a cultura de que violência contra a mulher não é crime. E frisou que o Cdes está disposto a auxiliar nessa mudança cultura.
Estiveram presentes no evento também a juíza titular do Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da Comarca de Porto Alegre, Madgéli Frantz Machado; o diretor do IGP José Cláudio Teixeira Garcia, e a coordenadora da Sala Lilás do IGP, Andrea Brochier Machado; pela Susepe, Anelize Pereira de Moura; a coordenadora das DEAMs, Anita Klein; o representante do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), Conrado Paulino da Rosa; a coordenadora da Assessoria Superior do Governo do Estado, Juçara Maria Dutra Vieira; a secretária-adjunta da Casa Civil, Mari Perusso; a assessora de Direitos Humanos da Susepe, Maria José Diniz; representantes da Secretaria da Educação (Seduc), Helena Martins, e da Secretaria da Saúde, Nadiane Lemos; a comandante Tenente Coronel da Brigada Militar, Nádia Genhard; a presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, Rosana Leivas; Maria Elena Estrazuras, do Gabinete dos Prefeitos e Relações federativas; e Loiva Dietrich, representando a Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos.
Fonte: Site SPM/RS

Alvorada terá Patrulha Maria da Penha e Delegacia de Atendimento à Mulher

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) realizou uma reunião preparatória para a implantação da Patrulha Maria da Penha e da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), em Alvorada, nesta segunda-feira (26). O projeto, que já atua nos Territórios de Paz de Porto Alegre - Rubem Berta, Lomba do Pinheiro, Restinga e Santa Tereza - também será implantado em Caxias do Sul, Canoas, Esteio, Passo Fundo, Santa Cruz do Sul e Vacaria. 

A Patrulha Maria da Penha integra a Rede de Atendimento da SSP, que foi idealizada pelo Fórum de Pró-equidade de Gênero Raça/Etnia. O grupo trata das questões voltadas ao enfretamento à violência doméstica e desenvolve políticas públicas de amparo a mulheres que sofrem esse tipo de agressão. Além disso, trabalham de forma integrada com os Centros de Referências, Casas Abrigos e, também, centros de Saúde para que as vítimas recebam os primeiros atendimentos necessários e saiam rapidamente da situação de vulnerabilidade. 

O município de Alvorada ainda não dispõe de uma Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, por esse motivo, o projeto de reforma da sede da 3ª delegacia de Polícia já está pronto e sendo analisado pela Secretaria da Segurança Pública (SSP). A ideia é que a DEAM funcione no mesmo prédio, mas com entradas individuais para que a privacidade das vitimas seja mantida. A previsão é concluir a reforma ainda neste ano e a DEAM iniciar operação até início de 2014. 

Com a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher em funcionamento, será possível a integração da Polícia Civil com a Brigada Militar no projeto da Patrulha Maria da Penha. Essa transversalidade no trabalho das polícias do Estado é uma proposta inédita de Governo. A Patrulha Maria da Penha, atuando em conjunto com a Polícia Civil, já tem apresentado resultados positivos na redução dos índices de violência e no enfrentamento a violência doméstica nos municípios onde atua. 

A reunião, na prefeitura, contou com a presença do prefeito de Alvorada, Sérgio Bertoldi. "É fundamental que a rede de atendimento atue de forma integrada. Estamos à disposição para colocar esse trabalho em prática e buscar resultados positivos", garantiu Bertoldi. 

Segundo a chefe de gabinete da SSP, Raquel Gomes, a iniciativa é uma ação de Governo inédita na segurança pública. "Temos o compromisso diário com o enfretamento à violência doméstica. É fundamental que essas vítimas tenham o acolhimento da rede de atendimento", disse. Também estavam presentes na reunião a deputada estadual Stela Farias, representantes da Brigada Militar, Polícia Civil e secretários municipais da Saúde, Direitos Humanos e Segurança Pública. 

Como funciona a Patrulha Uma Patrulha Maria da Penha é composta por quatro policiais militares que fazem rondas para acompanhar os casos de violência doméstica e o cumprimento das medidas protetivas. As equipes contam com policiais militares selecionados em razão do conhecimento prévio da região e do contato diário com as comunidades. A Patrulha também contará com viatura com identificação própria, tablets com acesso à internet, pistolas, coletes à prova de bala e armas taser. 

Polícia Civil 
Diariamente, relatórios são produzidos e repassados para a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, integrando o trabalho com a Polícia Civil. 

Sala Lilás Para oferecer um atendimento mais humanizado às mulheres vítimas de violência, o Instituto-Geral de Perícias criou a Sala Lilás, instalada no Departamento Médico Legal, para integrar o projeto. O objetivo é oferecer um espaço diferenciado e acolhedor para que a vítima não se sinta exposta na sala de espera e não tenha contato com o agressor. 

Susepe A Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe) integrou-se ao projeto com a incumbência de comunicar à rede de atendimento e à vítima quando o agressor for colocado em liberdade - para que a mulher e seus filhos possam receber o apoio necessário. 


Fonte: Site SSP/RS

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Presidenta Dilma recebe no Congresso Nacional relatório da CPMI da Violência Contra a Mulher

A presidente da República, Dilma Rousseff, afirmou que a violência contra a mulher terá "tolerância zero" em seu governo. Ao receber o relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investigou a Violência contra a Mulher, Dilma assumiu o compromisso de adotar as propostas da CPI, como subsidio, na implementação de políticas públicas para combater a violência contra a parcela feminina da população. O documento foi entregue pela presidente da comissão, deputada Jô Moraes (PCdoB-MG), e pela relatora, senadora Ana Rita (PT-ES), em sessão solene do Congresso Nacional na qual também se celebrou os sete anos da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006).
Dilma garantiu que vai atuar em parceria com os demais poderes da República, em todas as instâncias, e com as organizações da sociedade, para ampliar e humanizar as estratégias de acolhimento e proteção da mulher vítima de violência.
Para isso, ressaltou a presidente, serão construídas uma Casa da Mulher em cada unidade da federação. Até o próximo Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de maio, ela prometeu que algumas dessas 27 casas já serão inauguradas.
Segundo Dilma, as casas vão oferecer mais qualidade para proteger com humanidade e acolher com eficiência as vítimas de violência. A presidente ainda ressaltou a necessidade de punição dos agressores para o combate efetivo da violência contra as mulheres.
- Sem impunidade, diminui a violência – observou a presidente, ao  ressaltar ainda que o seu governo defende a igualdade entre homens e mulheres.
Votações
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirmou que os 13 projetos de lei e o projeto de resolução sugeridos pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investigou a Violência contra a Mulher serão votados pelo Senado nesta quarta-feira (28) e quinta-feira (29).
Entre as propostas, explicou ele, está uma que altera a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), o Código Penal (Decreto-lei 2.848/1940) e a Lei dos Crimes de Tortura (Lei 9.455/1997) para incluir o crime de feminicídio.

Até 2011, informou Renan Calheiros, pela Lei Maria da Penha foram instaurados mais de 685 mil procedimentos judiciais, dos quais 408 mil já foram julgados. Também foram realizadas 27 mil prisões em flagrante e  4.200 prisões preventivas.
De acordo com o presidente da Casa, pesquisa realizada pelo Data Senado mostra que 34% das entrevistadas apontam o medo, a dependência financeira e a criação dos filhos como os principais fatores inibidores de denúncias de violência contra mulheres. Renan ressaltou ainda que, conforme a pesquisa, 43% das brasileiras já foram vítima de violência doméstica.
- Esses dados nos levam a refletir sobre novas estratégias e políticas para reduzir a violência contra as mulheres – observou Renan Calheiros.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Deputada irá propor Frente Parlamentar para acompanhar recomendações da CPMI ao RS

O relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) – Capítulo RS, do Congresso Nacional, que investigou a situação da violência doméstica e familiar no Brasil, foi apresentado oficialmente na sexta-feira (23) pela Senadora Ana Rita (PT/ES), relatora do documento, durante evento promovido pela deputada Ana Affonso (PT), no Memorial do Legislativo. A senadora veio ao Rio Grande do Sul especialmente para a atividade e apresentou aos dirigentes de instituições e gestores públicos os dados e 56 recomendações específicas ao Governo do Estado, Ministério Público e Defensoria Pública.
Com mais de mil páginas, o Relatório da CPMI coloca o Brasil na sétima posição no ranking entre os países mais violentos do mundo. O Rio Grande do Sul ocupa a 19º posição entre os mais violentos entre as 27 unidades da federação.
Participaram da atividade os secretários de Segurança, Airton Michels; da Secretaria de Políticas Para as Mulheres (SPM), Ariane Leitão; o representante da Procuradoria Geral de Justiça (MP), David Medina da Silva; do Tribunal de Justiça, Antônio Ceccato; do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, Fabiane Dutra; a Coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública, Jamile de Toledo; a Coordenadora da Patrulha Maria da Penha, Comandante Nádia Gerhardt.


Mais justiça
Na ocasião, a Senadora Ana Rita apresentou as recomendações aos órgãos públicos do Estado e enfatizou a necessidade de mais estruturas de proteção às mulheres vítimas de violência além de mais agilidade no julgamento dos processos e condenação dos agressores, por parte da justiça. A Defensoria Pública reconhece a necessidade de qualificar o serviço de atendimento às mulheres e ampliar a infraestrutura de proteção, para que as vítimas sintam mais segurança através da Rede de Proteção dos vários órgãos que atuam na área.
A Procuradoria da Justiça considera a necessidade de se enfrentar a ‘leniência’ da legislação brasileira e ressaltou que, atualmente, o sistema judicial protege o delinquente. David Medina da Silva lembrou que a pena para o crime de ameaça à vida é de apenas um mês de detenção mas enfatizou que não há assassinos de mulheres absolvidos no RS. “É preciso educação contra a violência nos currículos das escolas”, entende. O Tribunal de Justiça adiantou que está ampliando as comarcas no interior do estado e garantiu que serão criados mais juizados especializados de atendimento às mulheres vítimas de violência, para desafogar os mais de 20 mil processos que se acumulam na única vara especializada existente, na capital.
A deputada Ana Affonso encerrou o evento anunciando que irá propor uma Frente Parlamentar de Acompanhamento das Recomendações da CPMI para o RS. “Precisamos de mais informação e maior articulação entre o sistema de proteção nos órgãos públicos”, finalizou.

7 anos da Lei Maria da Penha: efetivação dos direitos é processo permanente


Entrevistas exclusivas avaliam as conquistas e desafios no campo dos direitos das mulheres após sete anos de vigência da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Representantes das entidades parceiras da Campanha Compromisso e Atitude, operadores do Sistema de Justiça, gestores públicos e especialistas sintetizam o quadro colocado para enfrentar a violência contra a mulher no Brasil hoje. Entre os entrevistados, estão a ministra Eleonora Menicucci, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, o conselheiro Ney Freitas, do Conselho Nacional de Justiça, o secretário para Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, Flávio Caetano, entre outros. Confira. 

A LEI NÃO CONVIVE COM A IMPUNIDADE 

Eleonora Menicucci, ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) 

O caminho para enfrentar a violência doméstica é ampliar a implementação da Lei Maria da Penha. O Brasil mudou muito nestes 7 anos. Hoje, a legislação não convive com a impunidade: ela pune, com no mínimo 3 anos de cadeia, e também mexe na conta bancária do agressor com as indenizações regressivas ? o agressor terá que devolver à União, por meio do INSS, tudo o que for gasto com as indenizações e pensões. 

A atuação do Estado de forma integral foi outro ponto que avançou imensamente nestes 7 anos. O exemplo disso é que, no dia 13 de março, no lançamento do Programa Mulher Viver sem Violência, que visa a integração dos serviços, tínhamos os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, o presidente do CNJ, o procurador-geral da República, a representante da Defensoria Pública ? todos sentados na mesma mesa no Planalto. Essa integração está se capilarizando para os Estados: não existe hoje no Brasil, entre os 27 Estados, algum um que não esteja articulando essa relação para implantar o programa. Temos que ter tolerância zero com a violência contra as mulheres e eu acredito que a parceria entre todos os órgãos e a sociedade para efetivar a Lei é o caminho. 

INTEGRAÇÃO DOS SERVIÇOS É FUNDAMENTAL 

Aparecida Gonçalves, secretária de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da SPM-PR 

Nestes 7 anos, aumentou o número de medidas protetivas de urgência, mas também aumentou o número de mulheres que foram assassinadas mesmo com a medida protetiva na mão. Então, precisávamos criar um instrumento e novas formas para que o serviço público desse conta desse acompanhamento. É aí que entra o Programa Mulher Viver sem Violência, que tem o objetivo de trabalhar o atendimento integral à mulher em situação da violência, com a Casa da Mulher Brasileira, que vai colocar todos os serviços no mesmo espaço físico. 

Com isso, o Programa traz um elemento que responde a uma questão forte que observamos nestes sete anos: a necessidade de integração dos serviços. Hoje, existe uma grande dificuldade em realizar um acompanhamento efetivo, pela rede de atendimento, da mulher que recorre ao Estado e, com isso, muitas vezes nós perdemos essa mulher no meio do caminho, entre um serviço e outro ela acaba saindo da rede. Este é um desafio que persiste, após os 7 anos da Lei e que coloca a necessidade de repensarmos nossas estratégias. 

ACESSO À JUSTIÇA AVANÇOU, MAS AINDA É DESIGUAL 

Flávio Caetano, secretário para Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça 

A lei foi um grande avanço para o país, temos hoje um marco legal no combate à violência contra a mulher que é considerado exemplar no mundo todo. A partir dela, há uma mudança na cultura jurídica e na consciência das pessoas. O acesso à Justiça também mudou bastante porque hoje temos uma lei que pune com rigor aquele que agride a mulher. Antes tínhamos um grande problema porque não existia uma lei específica. Havia até entendimentos do Poder Judiciário e, pontualmente, agressões contra a mulher podiam ser consideradas como lesões leves, que se resolviam com uma pena alternativa, como a doação de cestas básicas. Isso não existe mais. 

Além disso, a Lei prevê um atendimento global e especializado à mulher. Em relação ao Sistema de Justiça, passamos a ter os Juizados Especializados de Violência Doméstica e os Núcleos no Ministério Público e nas Defensorias. Entretanto, ainda há muito a ser feito, pois os juizados ainda estão muito concentrados nas capitais. Nosso desafio agora é dar maior capilaridade a isso e integrar definitivamente os órgãos de Justiça, de Polícia e assistência social e psicológica. 

SISTEMA DE JUSTIÇA CAMINHA PARA ABSORVER VISÃO DE GÊNERO 

Ney José de Freitas, conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) 

O Poder Judiciário avançou em absorver a visão de gênero que a Lei demanda nestes sete anos, não como devia, pois os passos ainda são lentos, mas é um processo de transformação que é demorado. Temos uma situação muito antiga de violência contra a mulher e que vem se alterando fundamentalmente depois da Lei Maria da Penha. 

O assunto não é mais invisível, os tribunais estão mais preocupados com esta questão. A criação de Varas Especializadas em violência contra a mulher ainda é muito lenta, mas temos uma recomendação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para expansão dessas Varas e ela tem tido eco, os tribunais têm atendido, não estão mais em uma situação de inércia e de indiferença em relação a este tema. O importante é que toda caminhada, por mais longa e difícil que seja, sempre depende do primeiro passo. 

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA SAIU DA INVISIBILIDADE 

Marcus Antônio de Souza Faver, presidente do Colégio Permanente de Presidentes de Tribunais de Justiça 

A maior virtude da Lei em um primeiro impacto foi a conscientização do Poder Judiciário de que era preciso se adequar e preparar os seus juízes para enfrentar um problema que tem especificidades muito grandes ligadas aos aspectos sociais, econômicos e culturais da realidade brasileira. As mulheres não podem e não devem ficar permanentemente sufocadas, elas têm que recorrer ao Judiciário, ao passo que Judiciário tem que estar preparado para ouvir essas mulheres. 

O segundo impacto foi chamar a atenção da população para a questão da violência doméstica, que ficava amortecida, uma vez que prevalecia a ideia de que era assim mesmo que as coisas aconteciam e a realidade brasileira não iria mudar. Eu até fico me perguntando se a violência aumentou ou se a divulgação evidenciou um problema que já existia. De todo modo, esse foi outro grande valor da Lei: abrir um tumor que estava aí e estamos todos tomando consciência de que ele é mais profundo do que à primeira vista parece. 

ESPECIALIZAÇÃO DOS SERVIÇOS GERA RESPOSTAS MAIS EFICAZES 

Álvaro Kalix Ferro, juiz representante do CNJ e presidente do Fonavid (Fórum Nacional de Juízes de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher) 

Não há dúvida de que o Judiciário teve avanços consideráveis nestes 7 anos. O CNJ teve papel fundamental, pois, por meio de Recomendação e Resolução, instou os Tribunais de Justiça a criarem e instalarem os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, nos termos da Lei Maria da Penha, bem como as Coordenadorias da Mulher no âmbito desses Tribunais. Os Tribunais se empenharam nisso e hoje contamos com cerca de 70 Juizados no País. 

A especialização gera um trabalho mais adequado e eficiente e a previsão legal e a implantação desses Juizados foram primordiais para a busca dessa especialização. Porém, é preciso ressaltar que vários desses juizados instalados já estão com sobrecarga de trabalho e tantos outros precisam ser criados, o que merece atenção especial, conforme recente pesquisa realizada pelo CNJ. É necessária, ainda, a integração entre Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública e as áreas de Segurança Pública, Saúde, Assistência Social e Educação para obtenção de resultados mais efetivos no combate a essa violência, aliás, como a própria Lei Maria da Penha prevê. 

CRIAÇÃO DE SERVIÇOS REQUER COMPROMISSO DE ESTADO 

Leila Linhares Barsted, advogada da ONG Cepia (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação), que atuou no consórcio de formulação da Lei Maria da Penha 

Houve um grande avanço com a Lei Maria da Penha, mas é um avanço que não está necessariamente consolidado. No campo dos direitos das mulheres o tempo todo somos ameaçadas de retrocesso no contexto da cultura machista e patriarcal. O fato de criarem serviços não significa que os poderes assumiram um compromisso ideológico, digamos assim, com a consolidação dos direitos constitucionais das mulheres, com o fortalecimento de uma cultura da não violência e com uma boa aplicação do acesso à Justiça pelas mulheres. 

A criação de serviços não significa necessariamente valores e compromissos de Estado, que são essenciais. Então, não basta que se crie o Juizado de Violência Doméstica, é importante que os Tribunais de Justiça se orientem pela correta aplicação da Lei, a todas as mulheres sem distinção, e partam também do princípio de que são responsáveis pela diminuição da violência e da impunidade. 

MULHERES ASSUMIRAM PROTAGONISMO NA PRODUÇÃO DE PROVAS 

Lindinalva Rodrigues Dalla Costa, promotora de Justiça do Mato Grosso e membro da Comissão Permanente de Promotores da Violência Doméstica (Copevid) do Conselho Nacional de Procuradores-Gerais de Justiça (CNPG) 

O papel desempenhado pelo Ministério Público para garantir proteção às mulheres em situação de violência mudou muito após estes 7 anos. O Ministério Público atua nesta área específica sempre sob a perspectiva dos direitos humanos das vítimas, que pela primeira vez assumiram o protagonismo na produção das provas e finalidade da prestação jurisdicional. 

Após a decisão do STF de fevereiro de 2012 sobre a constitucionalidade da Lei, o Ministério Público busca cada vez mais a padronização de entendimentos e medidas mais eficazes para fiscalizar a aplicação da Lei Maria da Penha e garantir a proteção das mulheres em situação de violência doméstica. 

MEDIDA PROTETIVA É FERRAMENTA VALIOSA 

Márcia Teixeira, promotora de Justiça da Bahia e coordenadora da Comissão Permanente de Promotores da Violência Doméstica (Copevid) do Conselho Nacional de Procuradores-Gerais de Justiça 

A medida protetiva é o principal recurso da Lei em um estágio em que não há como adotar outras opções de intervenção para a prevenção de novas agressões e até do homicídio. É uma ferramenta usada, muitas vezes, em situações que parecem ser irreversíveis e que tem, então, um sentido de freio, de concretizar a intervenção do Estado e interromper o ciclo de violência para que a gente possa tomar um fôlego e dar continuidade à conclusão do inquérito policial e ao acolhimento da mulher em situação de violência. 

É uma intervenção que encoraja muito as mulheres a seguir em frente, porque elas vislumbram outras possibilidades para viver sem violência e sentem um empoderamento grande pelo simples fato de o seu agressor ser afastado. Aqui no Ministério Público da Bahia observamos que, como existe uma morosidade para chegar ao julgamento final, as medidas protetivas são de extrema necessidade; é muito bom poder lançar mão dessa ferramenta para uma intervenção imediata. 

DEFENSORIA PRECISA DE MAIS NÚCLEOS ESPECIALIZADOS 

Jeane Magalhães Xaud, presidente da Comissão da Mulher do Conselho Nacional dos Defensores Públicos-Gerais (CONDEGE) 

Após a edição da Lei Maria da Penha, não só na Defensoria Pública, mas em todo o Sistema de Justiça houve uma mudança significativa na atenção às mulheres em situação de violência, que antes eram tratadas como apenas mais um caso e, com a especialização colocada pela Lei, todo o Sistema de Justiça foi obrigado a lançar um olhar mais humano para essas mulheres. A Defensoria Pública também mudou bastante nesse sentido. 

Claro que nós ainda estamos nos adequando, até por conta das nossas deficiências orçamentárias e a diferença entre os Estados. A maioria das Defensorias ainda não tem os Núcleos de Defesa da Mulher instituídos, salvo nas grandes capitais. Nós estamos trabalhando em todos os Estados para tentar melhorar esse quadro, e fazendo o que é possível dentro das nossas condições orçamentárias, estruturais e de pessoal para atuar na defesa dos direitos dessas mulheres, como prevê a Lei Maria da Penha. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Site do Banco Mundial destaca a Sala Lilás do IGP/RS















O site do Banco Mundial na Internet https://blogs.worldbank.org/latinamerica/pt/o-rio-grande-do-sul-se-veste-de-lil-s-pelo-fim-da-viol-ncia-contra-mulher publicou, nesta quarta-feira (07), a apresentação da Sala Lilás do IGP/RS, em Porto Alegre, através deste texto da corregedora-geral do IGP e coordenadora estadual da Sala Lilás, Andréa Brochier Machado:

“O Rio Grande do Sul se veste de lilás pelo fim da violência contra a mulher

Imagine a cena: você, mulher, sofre algum tipo de violência – física, psicológica, sexual, por exemplo – e vai ao Departamento Médico-Legal para fazer o exame de corpo de delito. Lá, machucada no corpo e na alma, você precisa dividir a sala de espera com a mesma pessoa que a agrediu. Enquanto isso, do lado de fora, a todo momento passam presos acompanhados pelas polícias Civil ou Militar.
De posse do número de ocorrência e dos pedidos de exames periciais, você chega ao guichê de atendimento. Depois, espera em um saguão o momento de ter acesso à clínica. Faz os exames, mas em nenhum momento perguntam a origem da violência – se foi fruto de uma agressão originada pela violência doméstica. No fim, o caso torna-se apenas mais um nas estatísticas criminais.
Imaginou? Em pleno aniversário de sete anos da Lei Maria da Penha, uso essa descrição para mostrar o que milhares de brasileiras já viveram. E, também, para falar como o tratamento às vítimas está melhorando no Rio Grande do Sul.
Há quase um ano, em 25 de setembro, o Instituto-Geral de Perícias (IGP) inaugurou no Departamento Médico-Legal a Sala Lilás. Trata-se de um espaço acolhedor, diferenciado, para as mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.
Na Sala Lilás, as mulheres têm total privacidade enquanto aguardam o atendimento para as perícias física e psíquica, são recebidas pelo serviço psicossocial e fazem o retrato falado digital.

Em busca de provas
A perícia física compreende o exame de lesões e a coleta de material biológico para exames periciais. A psíquica, feita com técnicas internacionais de entrevistas a vítimas, é fundamental para a elaboração da prova pericial nos crimes sexuais em que não haja prova material.
Já o serviço psicossocial foi criado para ajudar as vítimas de violência doméstica e familiar e de abuso sexual. Assistentes sociais reúnem informações sobre as condições sociais dos usuários e, a partir delas, fazem um melhor encaminhamento à rede social de proteção. O retrato falado digital, por sua vez, é feito no Photoshop. A vítima é atendida por profissionais qualificados.

Além disso, usa-se um kit padronizado de coleta de material para vítimas de agressão sexual e são oferecidas vestes íntimas descartáveis. Com isso, a mulher não precisa se constranger enquanto a lingerie original – muitas vezes contendo vestígios de sêmen do agressor – é recolhida e encaminhada para análise com as demais amostras coletadas.
O kit de coleta de material para vítimas de agressão sexual já está sendo utilizado nos 36 Postos Médico-Legais do RS. Agora, queremos também instalar a Sala Lilás em todos os postos do interior do estado.

Dados qualificados
Paralelamente a esse atendimento 24 horas, o IGP trabalha na qualificação dos dados e na análise estatística da violência doméstica e familiar. Usamos um software desenvolvido especialmente para gerenciamento, controle e emissão dos trabalhos periciais, com recorte de gênero e controle do número de casos de agressões. Só com dados qualificados é possível planejar uma resposta eficiente a essa violência.
A divulgação desse trabalho sempre traz surpresas. Por exemplo, depois de ver uma reportagem com o relato de uma vítima atendida na Sala Lilás, uma senhora nos ligou para obter mais informações e desabafar. Como ela era de classe média alta e não sofria agressões físicas constantes, não se julgava uma vítima de violência doméstica.
O desejo de todos os envolvidos no trabalho da Sala Lilás é de que ela e outras vítimas procurem a polícia e a justiça. Estamos de portas abertas para recebê-las.”

Fonte: blogs.world bank.org – Site do Banco Mundial
Fotos: Ascom IGP/RS        

Convite: Convite Debate sobre a Lei Mra da Penha - SPM-RS